Holanda

Cidades bate-volta de Amsterdam

Uma das conveniências que mais aprecio, morando em um país pequeno, é a facilidade de viajar entre um lugar e outro em algumas horas. As cidades são pequenas o suficiente para podermos explorá-las num piscar de olhos, ao mesmo tempo em que curtimos novas paisagens e ambientes que inspiram. A Holanda é prova disso. E ainda oferece de tudo um pouco: praias, montanhas, florestas, vida urbana, vilarejos medievais... a lista é longa!

Amsterdam, onde eu moro, é geralmente o ponto de partida para percorrer o país. Sempre adorei as viagens bate-volta: as considero na medida certa para calibrar meu entusiasmo enquanto absorvo um pouco mais da cultura holandesa tão peculiar e sobre a qual sempre fui fascinada. De bônus, a excelente linha ferroviária cobre bem todo o país e oferta tickets acessíveis que nos levam a lugares próximos que valem tanto a pena conhecer.

Mesmo antes de me mudar pra cá, sempre reservei um dia ou dois para descobrir o que há além de Amsterdam. Geralmente eu começava olhando o mapa para escolher, aleatoriamente, algum ponto não muito distante para me aventurar: felizmente nunca me desapontei. Depois de ter explorado algumas dessas cidades vizinhas mais de uma vez, criei esse guia em torno das que considero mais lindas, autênticas e culturais.

Em tempo: todas elas tem uma distância de no máximo uma hora e meia de Amsterdam, seja de trem ou carro.

Den Haag (Haia)

Dá pra tirar muito proveito do que a cidade oferece em apenas um dia. Mas, ao partir, as chances são enormes de querer voltar logo pra conhecer mais. Den Haag tem um forte viés político, onde inclusive estão as instalações administrativas do Palácio Real: não à toa sentimos um leve aspecto nobre pairando sobre os ares da cidade. Monumentos, museus, hotéis elegantes, ótimos bares e restaurantes também contribuem para o seu franco progresso urbano. Den Haag também pode se orgulhar de sua posição geográfica já que é a única cidade grande da Holanda com acesso direito à praia: Scheveningen. É um lugar perfeito não só para nadar e tomar sol (nas poucas semanas de verão), como também para surfar, caminhar e curtir eventos que pipocam pela costa. Outro passeio que agrada a gregos e troianos, sem sombra de dúvida, é visitar Madurodam, onde o país e suas belezas podem ser admiradas em miniatura.

Delft

Delft pode ser bem mais tímida que a capital holandesa, mas imprime uma personalidade bem forte em suas veias urbanas. Ela transmite uma sensação de cidade jovem (lojas descoladas, vida noturna, restaurantes contemporâneos e universitários formam a alma do local) ao mesmo tempo com que não esconde sua herança nobre. É fácil notar características intrinsecamente tradicionais na igreja gótica Nieuwe Kerk: é lá onde os membros da Família Real são enterrados. A igreja fica no coração do Centro, que por sua vez é conciso e convidativo para caminhadas entre lindos canais e casinhas pitorescas. No entanto, o que mais amei nessas andanças foi sentir, a todo momento, ainda que sutilmente, as influências deixadas pelo pintor Johannes Vermeer. Ele divide as atenções com as belíssimas porcelanas azuis - marca registrada de Delft, que estão por toda parte - e cativam inclusive os olhares menos atentos.

Zwolle 

Amo absolutamente tudo que existe nas cidades medievais. Todas elas parecem esconder segredos que nenhum livro de História seria capaz de testemunhar. Acho que isso é o que mais me fascina sobre esses lugares. Zwolle é uma cidade pequenina no Nordeste da Holanda cujo Centro Histórico preserva a intimidade do passado. Imediatamente me encantei com as charmosas fachadas de casas antigas e ruazinhas estreitas responsáveis por me fazer imaginar como era a vida aqui nos seus primeiros séculos de existência. Zwolle é daquelas cidades fora do circuito comum, desconhecida e por isso até mesmo subestimada. Não à toa o órgão de Turismo da Holanda (NBTC) tem investido bastante em atrair mais visitantes pra cá, principalmente em resposta à nova realidade que 2020 impôs a este setor. Fico muito feliz em perceber que o país tem dedicado esforços para mostrar que Amsterdam não é o que define a Holanda.

Rotterdam 

Essa é especial para amantes de arquitetura: vocês vão se apaixonar aqui! Como Rotterdam precisou ser em parte reconstruída - especialmente pelas destruições durante a Segunda Guerra Mundial - observamos construções interessantíssimas de linha contemporânea em muitos cantos da cidade. Além disso, podemos considerá-la uma espécie de hub onde atualmente se encontram algumas das mentes mais brilhantes do universo da arquitetura e do design: elas nos trazem, inclusive, expectativas bem altas quando se trata de planejamento e desenvolvimento urbano. Pelo fato de Rotterdam ser a segunda maior cidade da Holanda, ela carrega uma energia cosmopolita pulsante devido ao grande número de estudantes e expatriados (cerca de 200 nacionalidades se misturam lá). Sendo casa, também, do segundo maior porto da Europa, Rotterdam é um grande player responsável por grandes negócios de esfera econômica e logística.

Gouda

Que não haja dúvidas: a estrela do show aqui são so queijos! É o lugar para ver, respirar e comer queijo! A Holanda é um dos maiores produtores de laticínios do mundo e por isso mesmo preserva uma reputação impecável quando diz respeito a queijos. Gouda, por sua vez, é o tipo mais reconhecido no país. Mas seria injusto credenciar Gouda somente pela herança deixada pelas suas solares esferas comestíveis. Há um "quê" de medieval nas raízes dessa cidade, perceptível principalmente em seu Centro Histórico - que é uma graça, por sinal. Sua praça principal atrai visitantes e locais diariamente e de onde se parte para explorar todo o charme dos arredores.

Haarlem

É a parada mais curtinha saindo de Amsterdam. As duas são tão próximas uma da outra que mal se enxerga a linha que as divide no mapa. É uma cidadezinha de perfil introvertido e até poderia descrevê-la como a versão tranquila de Amsterdam. Se você adora moinhos tanto quanto eu, vá conhecer o 'Molen De Adriaan', construído no século 18 e que nos convida para uma visita guiada em seu interior (esta propriedade se tornou museu uns anos atrás). Mercados, praças, cafés, ruas fofas para passear e muito mais formam o perfeito conjunto da obra na linda Haarlem.

Melhores Hoteis em Amsterdam

Depois de alguns anos visitando Amsterdam sempre hospedada em apartamentos Airbnb – justamente para me aproximar dos costumes de um morador e absorver mais a cultura local – passei a explorar hoteis de diferentes perfis, até porque meu trabalho como RP hoteleira requer adquirir conhecimento na área a cada oportunidade de viagem.

A experiência começou no cinco estrelas Conservatorium, do grupo The Set – hiper bem localizado ao lado do Vondelpark -, cujo prédio é tombado pelo patrimônio onde antigamente funcionava o Conservatório da cidade. Para quem gosta de grandes hoteis, daqueles que oferecem toda uma gama de luxo e conforto, é uma das melhores – se não a melhor – opção na cidade. Sem dúvida o highlight da experiência foi o belíssimo Spa, de longe o mais completo da cidade. Seu nome – Akasha – significa terra, água, fogo e ar, em Sânscrito. São 1200m2 de deleite: 7 salas de tratamento, piscinas, saunas, Jacuzzi. Para não hóspedes, o Day Use (pode custar entre 50 e 75 Euros, dependendo da condição adquirda) é uma ótima pedida com direito a usufruir da belíssima academia do hotel.

Seguindo uma linha mais intimista, o Pulitzer Hotel me encantou com seu charme despretensioso e staff super cordial, além de estar num dos canais mais lindos de Amsterdam. Minha primeira experiência foi justamente como não hóspede, quando almocei no contemporâneo Jansz e, pela noite, passei horas regadas à boa coquetelaria nas mãos de experientes bartenders no Bar do hotel. Elegante, cozy, imperdível. Se a intenção é se hospedar – com certeza ninguém se arrepende – não deixe de conhecer o querido e experiente Concierge Ron Stoevelaar. Ele não só conhece a cidade como a palma da mão, como dá dicas assertivas para cada perfil de hóspede.

A saber: o Pulitzer foi fundado na década de 60 pelo neto do criador do prêmio de mesmo nome. Para dar vida ao projeto, Peter Pulitzer adquiriu 12 casas antigas situadas nos canais Keizersgracht e Prinsengracht.

Assim como no Pulitzer, minha primeira experiência no Hoxton Hotel foi como não hóspede, indicada por amigos pra conhecer o famoso brunch aos domingos. Só a decoração hiper cool e moderna, na entrada do hotel, já me conquistou. Cheio de gente jovem, do mundo todo, além de muitos holandeses, e um staff super descolado e amigável. O restaurante é delicioso e funciona conectado ao bar, o dia todo (há uma ótima seleção de drinks com gin); o café da manhã, ao contrario do habitual, não é no restaurante. Dentro de cada quarto, o hóspede encontra uma sacolinha fofa onde deve assinalar os itens de preferência (entre banana, leite, suco) e o horário que deseja receber. Já vem incluso no preço da diaria e deixada à porta pelas manhãs. Smart idea!

Dica: as bikes do Hoxton podem ser alugadas diariamente sem custo! Enjoy the ride!

A saber: a rede Hoxton acabou de abrir uma unidade em Paris, seguindo os mesmos moldes de hotel jovem, contemporâneo, com muita vida no seu lobby bar. Em Amsterdam, sua inaguuração aconteceu em 2015, no local onde funcionava o antigo Hotel Rembrandt, que como passar do tempo ficou obsoleto – em serviço e decoração.


Não deixe de visitar o Amstel Hotel: faz parte da historia da cidade e isso qualquer habitante de Amsterdam vai confirmar. Todos tem muito respeito pela imponência do hotel e pelo que representa na historia da hospitalidade da Holanda. É onde reis, rainhas, celebridades, socialites e grandes empresários se hospedam e desde 2016 vem celebrando seu aniversário de 150 anos. É daqueles hoteis que não abrem mão de um serviço de Mordomia impecável.

Sua entrada é imponente, toda feita de mármore, pé direito altíssimo, móveis clássicos. Por muitos e muitos anos seu restaurante La Rive manteve a estrela Michelin, infelizmente tirada em 2016. Nem por isso perdeu o encanto e a clientela, ávida pelas mesas que decoram o terraço do restaurante, disputadas em dias ensolarados. Se estiver um dia a passeio pela cidade, vá provar as delicias do cardapio de chá da tarde no seu restaurante Amstel Brasserie, onde provei o bolo de cenoura mais marcante da minha vida.

A minha última experiência hoteleira na cidade não poderia ter me surpreendido mais. Fundado por Alfred Henry Freddy Heineken (ícone da indústria cervejeira mundial), o Hotel de L’Europe foi construído em 1896 e nutre um serviço de hotelaria com alma, cordialidade e padrões internacionais (faz parte há mais de 30 anos também da rigorosa cadeia de hoteis Leading Hotels of the World). Embora grande, não perde a atenção aos pequenos detalhes e aos pequenos gestos de uma equipe eficaz e cuidadosa que muitas vezes passam despercebidos quanto maior o tamanho do hotel. Grande parte de seus quartos tem vista deslumbrante para o rio Amstel, assim como o belissimo restaurante Michelin Bord’Eau e o bistrô mais casual Hoofdstad Brasserie, onde diariamente se apresenta um grupo de jazz para o happy hour dos clientes.

Descobrindo a maravilhosa Amsterdam

Durante muito tempo tudo que se associava à Amsterdam eram os estereótipos de uma cidade tolerante ao consumo da maconha, à prostiuição, campos de tulipa, produtora de alguns dos queijos mais conhecidos no mundo. Tudo isso ainda pode ser, de certa maneira, relacionado às percepções sobre a cidade e com certeza são associações que não saem de nossa mente mesmo depois de termos conhecido a cidade. Acontece que seria um desperdício caracterizar Amsterdam tão e somente por esses detalhes. É um local muito cheio de outros atributos, vivo, com tanta qualidade e excentricidades como qualquer outro lugar do mundo. Pra começar, algumas partes da cidade chegam a 2 metros abaixo do nível do mar e precisam de uma engenharia humana e física tão impressioante capazes de segurar a intensidade da força do mar e impedir que toda sua superfície não seja engolida por água (o aeroporto de Schiphol, por exemplo, está a 1 metro sob o nível do mar). Só esse fato já coloca Amsterdam – e toda a Holanda – num patamar fora do comum. Embora uma cidade pequena, concentra tantos parques, a maioria deles com vida própria e cheios de personalidade: há desde os hiper turísticos como o Vondelpark, até os mais hipsters como o Frankandeal, até os mais família, como o Rembrandtpark, ou mesmo o Westerpark, mais acima, que costuma abrigar festivais e feiras diversas. A cena gastronômica de Amsterdam vem mudando muito e se equiparando às grandes metrópoles. Museus, nem se fala. Dá pra passar dias a fio conhecendo a riqueza cultural dos seus acervos. Embora o clima não seja tão atraente – a maior parte do ano é fria e o sol pouco aparece – todas as outras belezas podem compensar a ausência de calor.

Depois de eu ter virado uma referência para tantos amigos e clientes sobre Amsterdam, algumas dúvidas acredito serem essenciais compartilhar:

Quanto tempo ficar na cidade?

No mínimo cinco dias. Se for menos, até dá pra curtir, mas você irá deixar a cidade com a sensação de não ter visto e aproveitado suficiente;

Que épocas são melhores?

Se você não se importa com temperaturas frias, de Dezembro a Fevereiro é espetacular pois o número de turistas diminui; mas o período entre a 2a quinzena de Abril e a 1a de Maio é ainda mais bacana pois conseguimos ver as tulipas floridas, mais agradável para passeios nos canais e, se der sorte, aproveita o grande feriado do Dia de Reis (KoningsDag);

Transporte:

A pé, bike ou de trem. Por toda a cidade passam os “trams” que compreendem uma vasta malha (tickets fáceis de comprar no proprio vagão com o motorista, para 01 volta, para o dia todo ou para a semana) mas nenhuma visita a Amsterdam é completa se não passearmos de bicicleta – há lojas de aluguel de bike espalhadas por toda cidade;

É caro?

O custo de vida em Amsterdam não é barato. Uma refeição de almoço, em média, não sai por menos de 30 Euros por pessoa (lógico que há exceções, lugares e lugares). Mas não é uma cidade que instiga o consumo frenético como outras capitais mundiais;

Cash or not?

A Holanda como um todo sempre se preocupou com questões ambientais; não à toda, sua principal cidade vem abolindo o dinheiro em papel, no lugar de cartões de débito ou crédito. Muitos cafés, lojas, restaurantes e supermercados já não mais aceitam dinheiro. Fique atento!

Onde ficar:

Se você visita a cidade pela primeira vez e quer aproveitar ao máximo as localidades mais centrais, dê preferência aos bairros Jordaan, De Pijp e toda a região que rodeia o cinturão de canais mais famosos da cidade (“Grachten Gordel”). São bairros com uma vida social bem agitada e próximos a muitas atrações culturais. Se você passou do nível “amador” após algumas visitas e deseja ir mais local, explore os bairros de Oud West, De Plantage e Oost. Fogem um pouco do turbilhão central mas ainda estão hiper bem localizados, com uma vida social mais próxima da realidade do cidadão de Amsterdam e com cantinhos especiais para se descobrir;

Bicicleta:

Acho que a experiência em Amsterdam se torna bastante completa com uma bela pedalada pela cidade. Mesmo se você mora em capitais frenéticas como São Paulo, Londres e NY e perdeu o costume das duas rodas, não se intimide pois até o ciclista mais inexperiente é bem vindo na cidade. É fato que o holandês domina a arte das duas rodas como poucas nações, mas nem por isso ele não respeita o turista de primeira viagem. Só um cuidado é muito importante: a ciclofaixa também divide espaço com motoristas de motos, alguns deles, não muito respeitosos com a velocidade. Se o seu hotel não tiver bike disponível para aluguel, há muitas opções espalhadas pela cidade. As duas que costumo usar são Bike in Town e Amsterdam en Bicicleta, que cobram em média 15 Euros a diária (lembre-se de levar seu passaporte ou documento de identidade, obrigatório para a retirada da bike).