Por que a comida desperta emoções?

Pense nas viagens inesquecíveis que você já fez. Recorde as memórias afetuosas de infância. Imagine um fim de semana perfeito com sua cara-metade ou uma noitada com amigos. As chances são enormes de que o ato de comer desempenhou um papel fundamental na maioria dessas circunstâncias, se não em todas. A forma com a qual nos importamos com comida - e com tudo que gira em torno dela - excede o propósito de simplesmente nos alimentarmos. Contamos com a comida para aproveitar ao máximo nossas experiências, assim como ela pode ressoar emoções inigualáveis devido à maneira como é vivenciada.

Friends sharing a freshly baked artisanal bread

Embora uma ocasião gastronômica possa implicar que esperamos ser surpreendidos, não se trata apenas de indulgência. Mesmo o prato mais lindo e delicioso não se basta na ausência de companhia. Para que sabores, cores e aromas revelem seu esplendor, os comensais devem se envolver, se engajar com o ambiente. É sobre como e com quem compartilhamos pensamentos, segredos e amor, possibilitando assim que a experiência da comida seja valorizada posteriormente, quando as luzes se apagam.

Certas receitas despertam um oceano de emoções sempre que minha imaginação as torna vivas. Elas são tão saborosas e aromáticas! No entanto, são os momentos que vivi na presença desses pratos que mais sinto falta. Os encontros em torno de uma mesa que me fizeram querer congelar aquele instante para sempre... Esses são os verdadeiros estímulos dos quais o ser humano tanto depende. Isso também corrobora o fato de que muitos de nós não encontram prazer genuíno em cozinhar sozinhos: a experiência não durará na ausência de outras pessoas.

Posso me identificar com qualquer um que tenha lutado para lidar com a falta de socialização da qual a pandemia nos privou. Enquanto esperamos para nos reunirmos novamente, sem restrições, deixe-me exaltar algumas das minhas comidas favoritas. Elas podem não estar no meu cardápio diário, mas ainda alimentam minha alma só de pensar a respeito:

Thai Green Curry at the Bird restaurant in Amsterdam
Typical dish from Brazil with rice and beans
Sweet pastry cassata siciliana served at a bar in Palermo

Pizza napoletana: ter raízes italianas certamente pode estragar algumas experiências culinárias na vida. Você se torna muito crítico, muito exigente. É por isso que às vezes prefiro não comer pizza se não for preparada de acordo com as regras. O único lugar onde comi uma verdadeira e deliciosa fora de Nápoles foi em São Paulo. Não à toa a maior parte da comunidade italiana longe de seu país de origem seja sediada em minhas terras tropicais. Apesar da minha eterna paixão por pizza, o que realmente sinto falta são meus amigos brasileiros com quem eu sentava à mesa todos os domingos à noite. Nossa verdadeira amizade é o que vem à mente sempre que minha boca e meu coração desejam uma margherita.

Green curry: levei 37 anos para provar um Thai Green Curry pela primeira vez. Foi durante minha primeira estada na Tailândia (outubro de 2019) e desde então todos os dias anseio voltar. Adoro absolutamente tudo nesta receita, especialmente o calor refrescante graças à dose abundante mas perfeita de especiarias e pimenta. Esta foi de longe uma das viagens mais especiais da minha vida. Os templos exuberantes e coloridos e as sensações que sentimos uma vez dentro deles, a generosidade do povo, a forte espiritualidade: é tudo avassalador! Às vezes, parece que dá uma pontada de tristeza no estômago só de pensar no quanto sinto falta de cada pedacinho dessa viagem.

Brazilian Rice and beans: se eu tivesse que escolher apenas uma refeição para o resto da minha vida, seria o típico arroz com feijão brasileiros. Sou louca por arroz, em todos os seus preparos, mas é a combinação com o feijão marrom fresquinho que o torna uma especialidade única. Essa também é a base do hábito alimentar de quase todas as famílias brasileiras. Muito nutritivo também. Minha avó materna preparava o mais inesquecível! Essas memórias ainda estão tão vivas que consigo reproduzir a minha imagem, ainda pequena, em sua cozinha. Ela foi a cozinheira mais dedicada e apaixonada que já conheci.

Malu Neves eating pizza napoletana at the Bella Storia restaurant in Amsterdam
Artisanal bread freshly baked at the Levain et le Vin in Amsterdam
A typical delicacy from the Middle East called Kanafeh

Kanafeh: é um pouco estranho considerar este como um dos meus pratos mais significativos, porque mal me lembro de seu gosto. Embora saiba que é realmente delicioso, não guardo memória no palato, exceto o contexto em que me deparei com essa iguaria típica do Oriente Médio. Foi durante uma visita a Amã, capital da Jordânia, em 2017, quando um guia local chamado Yazan (que desde então se tornou um grande amigo) me apresentou o que viria ser um doce imperdível. Visitamos um lugar onde Kanafeh é preparada há séculos - por si só já um motivo especial. No entanto, o que mais me marcou foi a benevolência do meu amigo jordaniano, que carregava uma expressão honesta e franca, sempre que um prato de sua terra natal me fazia sorrir.

Pão artesanal: assei pão por alguns anos e, apesar de nunca ter feito terapia em toda a minha vida, parecia um dos tratamentos mais eficazes que eu poderia escolher: não custa muito, o silêncio nunca será constrangedor e o único cronômetro é o que está dentro do forno. Era gratificante ver a satisfação dos meus amigos depois de tanto esforço, após esperar pacientemente que a longa fermentação seguisse o seu próprio ritmo (a beleza é que não dá para prever como vai ficar: cada fornada revela uma personalidade singular). Anos atrás, no entanto, falar sobre fermentação natural, levain e sourdough ainda eram conceitos um tanto estranhos antes de se tornarem um sucesso mundial. Felizmente, depois disso, muitas pessoas começaram a apreciar não apenas essa indústria de pequena escala, mas o que é necessário para fazer um pão: amor verdadeiro, energia positiva e um propósito genuíno de deixar as pessoas felizes.

*Aliás, quando em Amsterdã, não perca o pãozão de azeitona que vende aos sábados no Noordermarkt.

Cassata siciliana: sempre que a Sicília me vem à cabeça, meu coração parece bater um pouco mais rápido e imediatamente penso em Palermo. A beleza magnífica e mal interpretada desta cidade junto ao seu povo afetuoso e amoroso são marcas registradas deste pedaço de terra italiano que se tornou meu favorito. A gastronomia do sul é irresistível e divina, e também guarda longa tradição de confeitaria, cuja herança foi deixada por árabes, gregos e espanhóis. A cassata siciliana foi criada em Palermo por volta do ano 998 D.C., cuja forma de torta tem uma consistência macia e feita de pão de ló, com creme de ricota doce e gotas de chocolate. A massa é coberta por uma camada de açúcar de confeiteiro e marzipan, decorada com frutas cristalizadas em designs barrocos opulentos e festivos. Apesar de não recusar nenhuma cassata, prefiro as delicadas e pequenas, de cor verde, para comer em poucas mordidas. É um sonho!

Comentários

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  • Heitor Menotti
    Uma memória afetiva que tenho da Bahia, num período muito especial que passei em Salvador, foi um jantar que tive no Pelourinho com uma amiga e comemos uma moqueca de frutos do mar inesquecível. A cia era ainda mais especial que a comida, e agora, para mim, é impossível separar o destino do sabor, e os dois sempre me lembrarão do carinho que tenho pela pessoa que estava lá comigo.