Holanda: onde os fracos não tem vez

15 de Novembro de 2021

“Se você quer que as coisas aconteçam na Holanda, você tem que pressionar, pressionar e pressionar mais ainda!”. As palavras daquele holandês ainda ressoam na minha lembrança. Pela primeira vez entendi que as coisas não são fáceis neste país como romantizei por tanto tempo. Sempre fui daquelas que prefere ouvir a verdade nua e crua: e aquela foi um misto de choque com alívio, pois a partir daquele momento eu não era mais uma estranha no ninho. Por mais esdrúxulo que possa parecer, nossa conversa era sobre a minha indignação frente o quão tarde mulheres holandesas começam a tomar medidas preventivas para reduzir a mortalidade por câncer de mama.

Embora esta confissão - e frustração - não seja sobre a ausência de check-ups rotineiros daqui, vale ressaltar que brasileiras a partir de 35 anos fazem mamografia anual enquanto, na Holanda, esse controle é voltado somente àquelas entre 50 e 75 anos (e, pasmem: a cada 2 anos). Não me surpreendeu descobrir que a Holanda tem a terceira maior taxa de câncer de mama do mundo (Bélgica e Luxemburgo estão no topo da lista). Sem falar em outros exames como Papanicolau que acontecem apenas a cada 5 anos! É impossível não se perguntar por que métodos profiláticos de saúde são um conceito tão distante deste país de primeiro mundo.

O que me leva à minha última frustração a.k.a. pesadelo: por quase 3 semanas fiquei sem água quente e calefação em casa. Nunca as palavras daquele holandês pareceram tão legítimas! O proprietário do meu apartamento, intermediado pela sua imobiliária, negligenciou a necessidade de substituir nossa caldeira de 20 anos por uma nova. Tal trabalho deveria ter sido feito em algum momento do ano passado, quando a empresa de manutenção assim o advertiu. Nossa caldeira não só não foi substituída quando deveria, mas também quase pegou fogo: comigo e com meus gatos em casa, diga-se de passagem. Aquela noite de sexta-feira me assustou tanto até que o cheiro de fumaça inebriou o sinal mais alarmante que eu poderia ter para começar um motim.

Antes de entrar nessa saga, lição número um: os holandeses são as pessoas que menos gastam dinheiro, então, tudo o que puderem fazer para economizar um centavo, eles o farão. Mesmo que isso signifique consertar aparatos milhares de vezes em vez de comprar um novo e decente. Às vezes me pergunto se a expressão DIY (faça você mesmo) foi inventada aqui...

Você acredita se eu disser que minha primeira reclamação sobre a condição precária da nossa caldeira foi em dezembro de 2020? Naquela época, o inverno já maltratava com força, enquanto o lockdown interminável somado ao toque de recolher agravaram nossa situação miserável. Além disso, minhas janelas são cercadas por pequeninas rachaduras invisíveis pelas quais as rajadas do - nada sutil - vento holandês entrava forte a ponto de me ver obrigada a usar cachecol, luvas e gorro dentro de casa, mesmo com o aquecimento ligado. Juro que não é brincadeira.

Minha primeira tentativa de pedir ajuda foi em vão. Como eu disse antes, os holandeses sempre têm uma solução DIY para contratempos em geral. O primeiro conselho do agente imobiliário endossado pelo meu vizinho sabichão foi comprar uma fita isolante para colar nas janelas. Imediatamente indaguei: e por acaso existem adesivos fortes o suficiente para proteger esse vento de 36 km/h? Aparentemente não, mas seguimos conforme o sugerido.

Desde então, descobri que reparos e renovações na maioria das propriedades holandesas precisam ser aprovados primeiro pelo VvE (Vereniging van Eigenaars), que significa Associação de Proprietários. Se um único membro do VvE não estiver de acordo ou fizer corpo mole para colaborar, nada acontece. E, fala sério, que ritmo particular esse pessoal tem pra resolver as coisas! (ou seria eu a mimada da história, acostumada a simplesmente pagar pra ter o que precisamos como no Brasil? Talvez).

Em outras palavras, esse modus operandi se resume a consenso, parte de uma mentalidade enraizada na cultura holandesa que por sua vez dita a forma com a qual decisões são tomadas. A explicação está num costume secular, quando os primeiros habitantes deste país perceberam que o único modo de evitar que a terra afundasse (pelo menos 50% da Holanda está abaixo do nível do mar) todos deveriam cooperar uns com os outros, encontrando um senso comum para dar andamento as necessidades básicas para manter uma sociedade. O que, na maioria dos casos, leva uma eternidade para acontecer, desde política às medidas do Corona até uma substituição trivial de caldeira.

Pois bem, o presidente do nosso VvE coincidentemente é o vizinho de cima e ele não parecia se importar muito, até que eu resolvi denunciar para a associação não governamental chamada !Woon que, em termos gerais, é aquela que os inquilinos pedem socorro quando enfrentam problemas sérios que estão sendo negligenciados.

Avançando para outubro, quando nossa caldeira quase pegou fogo: talvez você se pergunte por que nada foi feito antes disso e minha resposta é simples: deve haver uma situação extrema, pra não dizer ameaçadora, para os holandeses se mexerem. Durante os meses anteriores, perdi a conta de quantos e-mails e telefonemas troquei com a imobiliária, implorando que fizessem algo com aquela maldita caldeira - além das janelas precárias. Depois descobrimos que não era uma questão de substituir apenas a nossa, mas sim, todas as outras: o sistema interno do edifício estava tão comprometido que todos os canos, dutos e afins precisaram de uma reforma completa.

Por fim, em 5 de novembro, quase um ano depois de me tornar um esquimó, calor e ordem foram restaurados às nossas vidas novamente. Nunca me senti tão aconchegante em casa. A Holanda pode ser um dos países mais prósperos, seguros, civilizados, ricos e bonitos do mundo. E Deus sabe o quanto eu aprecio este lugar! Mas uma coisa é certa: o país perfeito do primeiro mundo é uma ilusão e se você escolher a Holanda para chamar de lar, trate de arregaçar as mangas.

Comentários

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Alessandro Jésus Guimarães
O maravilhoso mundo do: "A gente vê isso depois." Eu não fazia ideia disso. Sempre que trabalhei com Ingleses, Americanos , Australianos, e Alemães as demandas eram para ontem e pontuais. Sem chance para atrasos não antecipados o que se traduz no seguinte: pode atrasar, mas tem que prever o atraso. Nesse aspecto a Holanda me surpreendeu.
Guide Me To
Sim, Ale, eu também me surpreendi muito com esse "a gente vê isso depois". Outra prova disso, em gigantes proporções, é a situação calamitosa na qual deixaram chegar pontes e cais em Amsterdã (vide minha matéria pra VEJA que vc leu!) para começarem a tomar providências. E assim a banda toca, nos provando que nenhum país é perfeito.
Rosana Cristina Frois
Sou leiga, mas me decepciona saber que país de primeiro mundo também pensa pequeno! Muito triste.