Holanda

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Amsterdam

A nação mais tolerante do mundo (?)

Certa vez um professor me disse que eu tinha uma visão muito romântica sobre o holandês: que eu idealizava uma imagem perfeita - ou ingênua - de sua nação. Aquilo me tocou profundamente; me senti decepcionada. A figura de uma cultura de pensamentos e abordagens que eu acreditava como ideais e que preenchia minha imaginação desde a primeira vez em que pisei na Holanda, em 2011, de repente se enfraquecia conforme conversávamos. Confesso que fiquei calada e cabisbaixa, e até hoje faço essa reflexão, de forma silenciosa. Mas desde que realizei meu grande sonho e mudei pra Amsterdam, no início de 2020, venho tentando concluir se de fato eu estava enganada.

Nutrir um amor pela cultura e pela educação holandesa, junto ao sonho de viver em Amsterdam, muitas vezes me fez enxergá-los com outros olhos, fantasiando uma nação sem defeitos, ultra tolerante. Não significa que eles não sejam; afinal de contas, sempre foi um lugar aberto a religiões e doutrinas diferentes: não à toa filósofos e pensadores como o inglês John Locke encontraram refúgio na Holanda, entre os séculos XVII e XVIII, pois somente lá estariam em paz com suas opiniões, ideologias e convicções.

Liberdade de expressão na Parada Gay de Amsterdã
Primeiro casamento homossexual em Amsterdam
Barcos desfilam na parada gay em Amsterdã

Casamento gay 

Os Países Baixos também foram os que primeiro oficializaram o casamento entre homossexuais, em 2011. A famosa Parada Gay, que em todo mês de agosto celebra e enaltece equidade para gays, lésbicas e comunidades transgênero, recebe uma aderência de toda cidade, inclusive de seus próprios governantes. O tão querido ex-prefeito Eberhard Van der Laan (falecido em 2017) sempre apoiou a causa e se manifestava a favor de direitos iguais para todos, defendendo a importância de Amsterdam nunca perder sua essência como uma cidade onde podemos ser nós mesmos. Já o rei Willem-Alexander, mesmo não participando ativamente das festas, assume publicamente sua empatia e orgulho em sediar, na capital, um evento que simboliza respeito, igualdade e liberdade de expressão. A Parada Gay é uma das melhores festas do país, diga-se de passagem.

Coffeeshops e prostituição

Alguns poderiam apontar o uso da maconha como outro aspecto de tolerância holandesa, já que existem mais de 500 coffeeshops no país onde a droga pode ser comprada para uso recreativo. No entanto, não se pode afirmar que drogas são legalizadas na Holanda: os coffeeshops ganham uma permissão para comercializar e as autoridades fazem "vista grossa" para aqueles que portam até 5g de cannabis. Conforme explica o site do Governo: "Drogas leves são menos perigosas à saúde que drogas pesadas. Na Holanda, é permitido aos coffeeshops venderem cannabis sob condições específicas. Coffeeshops são estabelecimentos onde cannabis pode ser vendida mas não bebidas alcóolicas. Isso faz parte das políticas de tolerância holandesa".

Já as ruas e vielas do popular bairro do Red Light District fazem luz à fama permissiva à prostituição que Amsterdam carrega pelo mundo: embora o centro da cidade seja um polo para profissionais do sexo desde o século XV, só no ano de 2000 é que o governo decidiu taxá-los com impostos e, por consequência, legalizar 300 cabines registradas para a prática desses serviços. Vale mencionar que a primeira prefeita mulher, Femke Halsema, não se mostra muito satisfeita com este tema. Ela já declarou que ao facilitar este business - solicitando às mulheres registrarem-se e pagarem impostos - basicamente torna o governo holandês um cafetão.

Prostituição na Red Light District em Amsterdã
Tolerância e liberdade de expressão na Holanda
Fumar maconha nos coffeeshops em Amsterdã

Senso comum

Depois de alguns meses familiarizada com as idiossincrasias na Holanda, absorvendo todos os seus aspectos, dia após dia, encontrei outra palavra que pode descrever - nem melhor e nem pior - esta mentalidade: pragmatismo. O holandês é prático, direto ao ponto (às vezes até demais para os que não estão acostumados), não faz rodeios. Quando se depara com um problema, procura enfrentar sem pânico nem fragilidade e, se possível, tira proveito até das circunstâncias mais difíceis.

Não demora muito pra associarmos esse comportamento à forma com a qual o governo prefere controlar prostituição e uso de drogas, no lugar de proibir o que fugirá do controle e não trará contribuição fiscal. Ao mesmo tempo, é um povo que aprecia demais sua liberdade, haja vista para o estilo de vida cujo principal meio de transporte é a bicicleta, enquanto tantos deles moram em um ambiente não convencional como um barco. Talvez por entender como a liberdade é um direito vital a todos, que as autoridades não tenham adotado políticas tão drásticas desde o início da pandemia do COVID-19. Não quero dizer que a abordagem foi certa ou errada, mas sim, que ela ponderou maneiras de não privar completamente a população do seu bem maior.

Mente aberta

É muito bom e positivo evoluirmos nossas crenças e considerarmos diferentes pontos de vista. Hoje entendo que minha visão sobre a nação mais tolerante do mundo era, sim, um pouco romantizada. Mas não tenho dúvidas que um pouco de pragmatismo cai bem em certos momentos. Mais importante ainda, na minha visão, é constatar que a Holanda está infinitamente mais próxima de um "modelo ideal" de país tolerante ao garantir segurança aos cidadãos e permitir que cada um seja como quiser ser.

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