Áustria

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Viena

Viena: todo o esplendor da antiga capital do Império Austro-Húngaro

Viena é uma cidade que estabelece o padrão ideal de elegância, prosperidade e riqueza. Dada sua herança aristocrática, um pouquinho de rigor também pode ser sentido em sua atmosfera. Por quase quatro séculos (1558 - 1918) ela foi uma cidade imperial, sendo a capital do opulento Império Austro-Húngaro, cujo reinado compreendia não apenas Áustria e Hungria, mas também Eslováquia, Eslovênia, Boemia, Croácia, partes da Polônia e Romênia além de um pouco da Itália. Este magnífico caldeirão cultural até hoje prevalece em todas as facetas do país, incluindo a sua cena gastronômica.

Interior do Museu de História da Arte em Viena
Interior da Biblioteca Nacional em Viena

Antes de nos deleitarmos na excelente cozinha vienense, sobre a qual não pouparei detalhes, deixe-me apenas ilustrar um fato que acredito ser importante mencionar, pra entender um pouquinho da personalidade de Viena: a habilidade astuta da cidade em manter glória e riqueza mesmo depois de infortúnios causados por eventos traumáticos. A Primeira Guerra Mundial, por exemplo, encolheu Viena de capital do império para uma pequenina cidade, assim que a família Habsburgo colapsou.

Depois de algumas décadas, por sua vez, eclode o regime Nazista durante a Segunda Guerra. Apesar de não ter sido duramente bombardeada como tantas outras capitais foram, as marcas da guerra deixaram um véu obscuro pairando sobre Viena, por trás do qual seus cidadãos se esconderam com vergonha, culpa e sofrimento. Ambos eventos, na minha opinião, fizeram Viena renascer das cinzas e recuperar sua influência.

Centro da cidade de Viena
Turistas passeando no centro de Viena

Cultura e Arte

Não à toa alguns dos maiores e mais criativos artistas de todos os tempos nasceram e se tornaram aclamados lá: os pintor Gustav Klimt; o arquiteto Otto Wagner; o designer Koloman Moser; o compositor Franz Schubert, entre tantos outros. O "pai da psicanálise", Sigmund Freud, embora tenha nascido na República Tcheca (que fez parte do Império Austríaco), emigrou para Viena com sua família em busca de melhores oportunidades de vida, tal qual tantos outros fizeram.

A propósito: os apartamentos onde Freud viveu e morou por quase 50 anos acabaram de reabrir após uma extensa reforma (Setembro 2020). Não apenas o Sigmund Freud Museum dobrou de tamanho como também permite, pela primeira vez, que os visitantes entrem em todos os quartos de sua casa e clínica, até então fechados a sete chaves.

Com tanta riqueza artística, a cidade de Viena irradia cultura e conhecimento. Museus, bibliotecas, óperas, palácios, galerias, jardins: ninguém jamais poderá negar o esplendor da influência e legado deixados pela Casa de Habsburgo (como era chamada a família nobre do então Império Austro-Húngaro), que está literalmente em toda parte. E como a maioria dos edifícios monumentais foram construídos durante uma época em que um estilo de arquitetura predominava, prepare pra ver um espetáculo de arte barroca por toda cidade!

Fachada do Palácio Imperial de Hofburg em Viena

Viena pontos turísticos

Aqui vai uma lista de museus em Viena, além de palácios, que amei visitar, alguns mais de uma vez, os quais considero imperdíveis:

Palácio Imperial de Hofburg (Hofburg Palace)

Não há viagem a Viena sem explorar - por algumas horas, aliás - este complexo que serviu de moradia para uma das famílias imperiais mais extravagantes que o mundo já viu. Por mais de 600 anos, a Casa de Habsburgo viveu neste palácio gigante formado por mais de dois mil quartos, museus, igreja, biblioteca, Escola de Equitação Espanhola e muito mais. Adoro tudo deste lugar, especialmente os aposentos da Sisi: onde podemos ver a vida íntima dessa querida Imperatriz, assim como sua obsessão por beleza, sua profunda melancolia e sua audácia quando se rebelava contra as cerimônias tradicionais da corte.

Museu de História da Arte (Kunsthistorisches Museum)

Você mal entra e já perde o fôlego: o hall de entrada, a escadaria e a cúpula no centro do museu exercem sobre o espectador um efeito impressionante e já deixam claro a grandiosidade que nos aguarda mais adiante. Magnífica por si só, a entrada é convidativa para um drink no elegante café do museu. Subindo as escadas, o show continua quando nos deparamos com obras de arte do pintor Gustav Klimt (pintor oficial da Corte por um tempo, comissionado inúmeras vezes pelos imperadores). Originalmente, o Kunsthistorisches Museum foi construído para guardar a extensa coleção de arte da dinastia Habsburgo e sabe-se que nenhum centavo foi poupado! Como resultado, vemos trabalhos desde o Antigo Egito até o final do século 18 - obras de artistas notáveis como Johannes Vermeer, Pieter Bruegel e Ticiano Vecellio estão entre as mais célebres exibidas.

Praça com monumento e jardim em Viena

Palácio Belvedere (Belvedere Palace)

É um dos museus mais importantes da Áustria e considerado uma das joias arquitetônicas de Viena. Fica em um complexo de prédios barrocos e jardins deslumbrantes (de estilo francês), também onde o antigo Príncipe Eugénio de Saboia passava deliciosas temporadas de verão. O Belvedere exibe uma coleção impressionante de esculturas e pinturas de grandes mestres como Gustav Klimt (sua mais extensa coleção fica neste local, incluindo o famoso quadro "O Beijo"), Egon Schiele, Oskar Kokoscha, Ferdinand Georg Waldmüller, junto a artistas internacionais como Edward Munch, Renoir, Manet, Monet e Van Gogh. Dica: não deixe de separar um tempo para contemplar as salas dedicadas à "Secessão de Viena" - parte integral da herança artística da cidade.

Palácio de Schönbrunn (Schloss Schönbrunn)

Por décadas esta foi a residência de verão dos imperadores da dinastia Habsburgo. Consegue imaginar a grandiosidade deste lugar? Você irá, garanto, uma vez que estiver frente a frente com este símbolo barroco de poder e influência. Palácio e jardins se integram como se fossem parte inseparável um do outro. Se a área externa já impressiona, espere pra ver os opulentes quartos, que são mais de mil. É majestoso! No entanto, minha parte favorita é o Gloriette: um pavilhão externo ao prédio principal antigamente usado para cafés da manhã e jantares do imperador e seu entourage. Pra chegar lá, se faz necessária uma bela e demorada caminhada pelos jardins: é cansativo, já adianto, mas chegando lá a recompensa vem com a mais deslumbrante vista do palácio e da cidade. Difícil descrever a magnitude deste lugar. O Schönbrunn é patrimônio da UNESCO desde 1996.

Biblioteca Nacional (National Library)

Dificilmente alguém conseguirá entender quão maravilhoso este lugar é, até ir visitá-lo. Antes de entrar, tenho certeza que você nunca viu nada parecido com esta biblioteca. Durante o período do império, serviu como Biblioteca da Corte, conectada por meio de uma extensa ala à residência Hofburg. O domo em seu interior é decorado com os mais belos afrescos assinados pelo pintor da corte, Daniel Gran. O antigo Príncipe Eugénio de Saboia tinha uma coleção pessoal de 200.000 volumes, até hoje mantidos neste edifício. A Biblioteca Nacional sempre traz novas exposições, extremamente interessantes, que fecham a experiência do visitante com chave de ouro.

Fachada da Majolikahaus do arquiteto Otto Wagner em Viena

Majolikahaus do arquiteto Otto Wagner

Embora este seja um prédio residencial e não permite a entrada de passantes (a menos que você tenha um amigo que more lá), não perca a chance de cativar seus olhos só de olhar a fachada: é provavelmente um dos mais deslumbrantes exemplos do estilo Art Nouveau no mundo. Os azulejos de cerâmica em motivos florais, conhecidos como Majolica, tiveram um papel funcional de acordo com a filosofia de Wagner, ou seja, de uma nova arquitetura moderna: resistente à água e fácil de limpar. Por causa de seu trabalho e de outros artistas (cujo precursor foi, claro, Gustav Klimt), a história da cidade pôde testemunhar um espírito de renovação e iluminação na arte, conhecido como "Secessão de Viena" (que é bem contado no Belvedere e também mostrado no Museu Leopold).

Museu Leopold (Leopold Museum)

Esta fascinante instituição cultural guarda a maior coleção austríaca de arte moderna e contemporânea. Sua curadoria garante que visitantes tenham a oportunidade de entender a transição entre os movimentos Art Nouveau e Expressionismo (incluindo o acervo mais importante de obras do Egon Schiele). Uma ótima oportunidade, também, de admirar os trabalhos do arquiteto Otto Wagner. Em tempo: em Setembro de 2020 o rooftop do Leopold Museum inaugurou um espaço chamado MQ Libelle, de caráter multifuncional, tanto para eventos como para passantes apreciarem a vista da cidade, enquanto tomam um aperitivo ao cair do sol.

O pintor Gustav Klimt no museu Leopoldo em Viena
Objeto de arte designer Koloman Moser no Museu Leopoldo em Viena
Porcelanas no Museu de História da Arte em Viena

A cultura dos doces

Não há lugar mais perfeito que Viena para saciar seu desejo de comer doces (alguns até podem discordar, sendo a França tão reconhecida por sua aclamada patisserie, mas não se compara à experiência que se tem dentro dos cafés vienenses, cuja atmosfera é única).

Não se trata apenas de comer tortas e bolos maravilhosos, mas sim, entender a tradição histórica desses lugares, desde a época da Corte, e como até hoje envolvem sua clientela em ambientes que não envelhecem. Pelo contrário, nos fazem querer ficar por horas.

Há séculos esses cafés são tidos como lugares pra "ver e ser visto". O Landtmann Café, por exemplo, foi o favorito de Freud, onde ele jogava xadrez e dava um respiro pra sua mente entre uma sessão e outra de psicanálise: lembre-se de pedir a torta de chocolate com avelã e praliné. É um sonho! Tão bom quanto este, também recomendo os seguintes endereços: Café Museum, Café Sperl, Café Pruckel e Café Eiles - todos são charmosos, cheios de história e vibrantes onde todas as tribos se misturam.

Sobremesa no Café Landtmann em Viena
Bar de coquetéis Moby Dick em Viena
Interior da Brasserie Palmenhaus em Viena

Onde comer em Viena

A Áustria é amplamente reconhecida por pratos com carne vermelha: wiener schnitzel, potato goulash (feita com linguiça), tafelspitz, rindsuppe (sopas são bastante consumidas) e por aí vai. Filé de vitela, linguiça de porco e carne de boi cozida são alguns dos protagonistas. A maioria das receitas foi inclusive herdada de diferentes culturas que uma vez fizeram parte do Império Áustro-Húngaro, resultando em uma mistura de influências da Europa Central.

Além disso, sobremesas trazem bastante notoriedade para a cozinha austríaca. Quando você estiver sonhando com um doce, não precisa pensar muito. Não somente por causa dos diversos cafés acima mencionados, mas também porque todos os restaurantes de Viena oferecem menus bem apetitosos para quem não vive sem um docinho.

Aqui estão meus restaurantes preferidos:

Zum Schwarzen Kameel

É uma instituição vienense desde 1618. Metade bar, metade restaurante, é O HOT SPOT da cidade, onde políticos, jet setters, artistas e turistas de todas as idades se amontoam e disputam as mesas externas. Tem sido assim por séculos. Não à toa faz parte da cultura de Viena, um local atemporal cujo conceito, como um todo - gastronomia, ambiente, serviço - são na medida certa. A comida, aliás, é deliciosa e agrada qualquer um. No entanto, o que mais atrai milhares de passantes são os sanduíchinhos abertos, os quais começamos a comer com os olhos. Eles ficam dentro de uma vitrine logo na entrada e são servidos pela mesma senhora de óculos excêntricos, há décadas: mas ela jamais vai lhe contar a receita! Ah, cheguei a mencionar sobre a belíssima arquitetura Art Nouveau do restaurante? Pois bem, sim, este é outro ponto forte dali.

Bruder Bar & Küche

Que delícia de noite passei neste lugar. A ideia por trás do menu criativo - e tão gostoso! - é oferecer o conforto dos sabores de uma cozinha caseira. Bebidas e comida são preparados com ingredientes ora cultivados nos jardins dos próprios donos ora selecionados por eles mesmos, direto de produtores locais (pode soar estranho: mas lá comi o melhor tomate da minha vida!). De cerveja a licor até comida feita com ingredientes fermentados passando por linguiças e queijos: tudo é cuidadosamente produzido e preparado por poucas mãos. A atmosfera do salão principal alimenta clientes com charme e humor. Os proprietários Hubert & Lucas, por sinal, são super atenciosos e simpáticos.

Tian

Foi difícil acreditar que um dos poucos restaurantes vegetarianos Michelin, do mundo, está em Viena. Mais precisamente, há somente nove restaurantes vegetarianos consagrados com a estrela no mundo todo e um deles fica na capital austríaca. A cozinha do Chef Paul Ivić é increditável! E emocionante. Quando você estiver na cidade, faça uma reserva neste lugar que garanto será uma das experiências gastronômicas mais inesquecíveis da sua vida. Se você for um carnívoro inveterado, dê uma chance: seus conceitos sobre comida com vegetais vai mudar.

Brasserie Palmenhaus

Não nego: o que mais me atrai neste lugar é o ambiente em si e não sua cozinha. Este é mais um exemplo de como o período extravagante do império deixou sua impressão digital por toda a cidade. A Brasserie foi antigamente uma enorme estufa, construída em 1822, de onde a família Habsburgo podia entreter convidados enquanto admiravam os jardins do Palácio Real. Hoje, convidados sentam em meio à uma rica e exótica natureza, repleta de palmeiras tropicais: lindo demais! Também pode ser uma excelente opção para uma taça de vinho no seu fim de noite.

Moby Dick - Bar & Eatery

Este bar é a prova de como a coquetelaria evoluiu em Viena. Ainda que ela seja uma cidade pequena quando comparada às cosmopolitas Nova York, Tóquio e São Paulo, a cena de bares vienenses se mostra extremamente inventiva e sedutora, assim como qualquer grande capital. O Moby Dick tem uma atmosfera hiper cool e leve, e oferece drinks preparados com maestria. Ótima comida também.

Café & Restaurant Motto am Fluss

Gosto de absolutamente tudo deste estiloso restaurante. Pra começar, oferece uma vista linda sobre as margens do Canal Danúbio. Seu design de interiores também faz jus à bela paisagem externa, com lindos móveis de Viena da década de 50. Não menos importante, o menu é assertivo com criações de cozinha internacional, pratos regionais orgânicos e excelentes vinhos locais (foi lá que em 2017 provei meu primeiro vinho austríaco e até hoje o tenho como um dos melhores). A propósito: o prédio parece um navio gigante e não é por acaso, já que serve como uma estação para barcos atracarem e desembarcarem passageiros que viajam pelo Danúbio.

Sobremesa do restaurante Michelin Tian em Viena
Sanduíches abertos no restaurante Zum Schwarzen Kameel em Viena
Restaurante Bruder Kuche & Bar em Viena

Se você ainda não foi a Viena, o que está esperando pra colocá-la em sua lista de destinos favoritos?

Mas antes, essas dicas podem ser muito úteis:

*Viajar para Viena não é barato; custos são altos quando comparados com outras capitais européias;

*Onde dormir em Vienna: Hotéis e B&B's tem estilos e preços para todos gostos e bolsos. No entanto, recomendo de olhos fechados o Altstad Vienna (descolado, charmoso e com uma pegada artsy, fica no bairro trendy de "Boboville") e o Guesthouse Vienna (excelente, no coração da cidade - bônus: vista belíssima dos quartos dos andares superiores!);

*Táxis são caros / Uber um pouquinho menos (prefiro usar transporte público que é bem eficiente e cobre toda a cidade - trens e metrô);

*É uma cidade super segura;

*Quando ir: bem, Viena no inverno é um tantinho congelante. Evitaria janeiro e fevereiro, se você for mais sensível ao frio, principalmente porque chove (e às vezes neva) e o ar fica bem úmido. Mas se você não liga pra temperaturas tão baixas, a cidade revela uma cena bem interessante nesta época, principalmente em Dezembro, com o clima de Natal. Durante a primavera-verão, no entanto, os ares mudam por completo e a cidade fica inteirinha colorida, cheia de luz e energia. Céu, árvores e arquitetura formam uma paleta de cores única. Ah, antes que eu me esqueça: durante os dias quentes e ensolarados, os vienense adora tomar sol e nadar no Danúbio!

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