Cores e temperos: os mercados de Tel Aviv

Pra quem gosta de comer, a viagem para Israel é um conforto para os olhos, estômago e alma. Primeiro porque quase tudo que se vê, antes de comer, tem muita cor, muita personalidade e aromas inebriantes. Segundo porque tudo tem muita referencia nas raízes árabes, que particularmente acho “a mãe” de todas as cozinhas do mundo (vamos lembrar das civilizações persas e por aí vai). E, terceiro, tão importante quanto, é porque tudo é muito bom mesmo! Quando viajo, faço questão de visitar pelo menos dois mercados de rua – ou feiras. São nesses lugares que a gente consegue entender como a cultura da comida se manifesta naquela nacionalidade. E, geralmente, onde dá pra se comer muito bem. Até porque hoje em dia qualquer capital que valorize seu turismo sempre tem boas opçõe para se comer, mesmo em feiras de frutas e verduras (antigamente, esses locais serviam para a dona de casa fazer a feira; hoje, se tornaram espaços lucrativos de turismo e a porta de entrada para a visibilidade da gastronomia local). O fato é que em Tel Aviv há mercados hiper conhecidos e turísticos – um paraíso para todos os cinco sentidos – e outros menos conhecidos e mais restritos aos moradores locais. Fui visitar todos. Aqui um raio-x da minha experiência:

 

Carmel Market: qualquer pessoa que vá a Tel Aviv ouvirá alguém falar desse mercado. É como se um visitante fosse a São Paulo, no Brasil, e perguntasse qual mercado deve ir. Todo mundo automaticamente falaria “Mercado Municipal de São Paulo”. É isso. O Carmel é um mercado de rua em ebulição: feirantes que falam alto; oferecem comida; outros que adoram que os turistas provem suas iguarias, outros que ficam bravos se você prova e não compra. É uma imensidão de cores e aromas. Tel Aviv não perde em nada para países tropicais como o Brasil quando se fala em frutas e verduras. E uma das frutas que mais se encontra fresquinha e em abundância é o romã. Pela primeira vez experimentei um suco de romã e confesso que até hoje sinto falta. O primeiro que provei, graças ao querido e inteligentíssimo guia Marcel Berditchevsky, foi feito por uma simpática vendedora imigrante do Iran (com o tempo, fui percebendo muitos judeus de famílias do Iran que se instalaram em Israel devido à Guerra). Que moça simpática! A gentileza dela ao me servir aquele suco vai ficar pra sempre na minha memória. 

No Carmel, dá pra comprar de tudo um pouco. Não só frutas e verduras, mas os temperos fantásticos dos quais o Oriente Médio é conhecido (zatar, sumac, etc), até as frutas secas deliciosas como tâmaras, figos, damascos e castanhas em geral. Nesse mercado, também, existe um dos locais mais disputados para se comer o famoso hummus. Conta-se que seu proprietário um dia acordou e disse que Deus apareceu em seu sonho e lhe orientou a abrir uma loja de hummus como se fosse uma sinagoga. Assim ele o fez. Vale a pena comprar uma ou outra coisa no Carmel. Mas se você estiver com visita marcada para o famoso Mahneuda em Jerusalem, deixe para gastar seu dinheiro lá (a variedade, a limpeza e o atendimento serão melhores).

Sarona Market: esse é um daqueles mercados criados recentemente (2015) que fazem jus à tendência ao surgimento dos food courts. Haja vista para o Chelsea Market em NY; o Borough Market em Londres; o FoodHallen em Amsterdam; e por aí vai. É um espaço menos rústico, mais sofisticado, feito para quem gosta de conforto e ar condicionado. Ele é tão conveniente que funciona inclusive no Shabbat (dia religioso no judaísmo, quando muitos locais comerciais fecham na cidade). Tem seu charme, claro, mas é um pouco mais “plastificado” em termos convencionais. O que sai em vantagem, por outro lado, é o fato de ter diversos restaurantes, bancadas, mesas comunitárias e quiosques, que por sua vez facilitam muito a experiência do visitante.

Em tempo 1: antigamente, o seu espaço esteve em posse de alemães, na época nazista, de palestinos e britânicos. Demorou-se muitos anos para se tornar domínio israelense e passar por um processo de revitalização. No entorno do Sarona Market há uma área linda de convivência, cercada por lojas, restaurantes, bares de vinho, gramados, entre outros. É onde muitos moradores passam parte do seu tempo livre, inclusive nos horários de almoço.

Em tempo 2: não perca o Halva Kingdom. Também encontrado no maravilhoso mercado Mahane Yehuda de Jerusalem, é um espaço dedicado a cerca de 100 tipos de halva (a tahine doce).

Em tempo 3: por baixo do Sarona há um passeio que se faz para conhecer os antigos bunkers. Vale a pena para entender um pouquinho da história desse espaço tão valioso na historia de Israel.

Levinsky Market: esse é o tipo de mercado que quase ninguám vai nos falar pra ir. Justamente porque é frequentado somente por judeus moradores locais. Mal se fala inglês por lá. Tive que fazer um esforço danado pra entender o que o dono da mercearia tentava me dizer sobre um tempero do qual eu queria comprar. Mas, pra quem gosta de “go local”, é uma experiência e tanto. Encontra-se muita coisa semelhante ao que se encontra num mercado turístico como o Carmel ou o próprio Sarona, mas por preços melhores e muito mais, digamos, original. O Levinsky Market nada mais é do que um conjunto de ruas que se interligam e são cheinhas de lojinhas, pequenos mercados e empórios. Todos muito parecidos entre si, mas com suas peculiaridades e histórias (grande parte delas, de família). O Levinsky foi originalmente criado por uma mistura de imigrantes; primeiro foram dos gregos na década de 30; depois os persas do Iran, e assim se sucedeu um local rico, principalmente, em temperos, cores, especiarias, e afins. É muito interessante de se ver as vitrines abertas dos pequenos mercados, decoradas com pirâmides de temperos ou caixas repletas de nozes, castanhas, tâmaras, pistaches, e por aí vai. Tâmaras, aliás, são as melhores do mundo. Podem ser compradas em diversos tamanhos – se bem que pra mim todas são grandes, quando comparadas com a oferta que temos no Brasil –; peguei um punhado delas e fui comendo uma a uma, dia a dia, ao longo da viagem toda, e ainda sobrou para trazer pra casa. São tão rechonchudas que parecem não ter fim; de um sabor inesquecível.

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